Normalmente esse tipo de coisa termina com um “continua”, mas esse vai começar assim. Porque é só uma experiência de um ensaio sobre um primeiro passo de alguma coisa que pode ou não pode vir a ser.

É só um passatempo.

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Você já imaginou como seria se o amar fosse banido por decreto?

Pois então era uma vez um certo país, há algo como muito tempo ou nem tanto assim. Em um dia desses, as Pessoas de Bem, em toda sua bondade, perceberam que todo o mal do mundo tinha uma causa em comum.

-Porque desde Helena de Troia o amor trouxe nada além de dor e sofrimento para esse mundo de homens – disse uma das Pessoas de Bem.

-Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente – redarguiu a outra. Paixão é sofrimento, é doença, faz do homem menos homem e traz somente dor e sofrimento.

E então, como o amor nunca trouxera nada de bom para esse mundo, as Pessoas de Bem criaram uma nova lei para acabar com esse mal.

 

Em um outro desses dias, as pessoas acordaram com as boas novas: acabou-se o amor. O decreto vinha mais ou menos assim:

“Decreto.

Dispõe sobre o amor e dá outras providências.

Art. 1º Fica proibido amar e ser amado.

Art. 2º Revogam-se todas as disposições em contrário”

Vale dizer que nos primeiros anos a proibição não surtiu o efeito esperado pelas Pessoas de Bem. O proibido fez do amor ainda mais cobiçado, como fosse recreação juvenil transgredir tão boas intenções. “Que lei é essa, afinal, que quer mandar em nossos corações?”.

Mas as Pessoas de Bem não desistiram de seus propósitos. Ciosas e diligentes, trabalharam incansavelmente pelo fim do sofrimento do mundo. Proibido o amor, era preciso acabar com toda a ideia que dele sobrasse, pois sim? Então se proibiram os romances e poemas e sonetos, e então se baniram as canções de amor e valsas e serenatas, e então estariam todos seguros novamente.

-Não se precisa de amor nesse mundo.

Ninguém mais podia falar em amor: banido das ruas, proscrito das escolas, esquecido do mundo inteiro. Ninguém mais pode saber de amor.

-Amor é assunto tabu, e quem nele falar será considerado um subversivo. Queremos somente o bem de todos, e amor nunca trouxe bem algum.

Vigilância era a palavra de ordem: primeiro para instruir, depois para prevenir, e logo depois para reprimir. Não podiam correr o risco de ter apaixonados espalhando a palavra da perdição.

Em alguns anos, a determinação e o trabalho duro colheram os merecidos frutos. Os corações esfriaram e as paixões esmoreceram, e nunca mais haveria Romeus ou Julietas ou Tristãos ou Isoldas. As Pessoas de Bem celebraram, e convocaram a todo mundo que era povo a vigiar também contra aquele sentimento tão errado que uma vez já vivera nesse mundo.

-É o que há de mais antinatural que se tem – diziam as Pessoas de Bem. – É o inimigo dos homens e um perigo para nossas gentes. Não é algo que uma pessoa de bem possa tolerar com a consciência de todo limpa, não é.

Mas já ninguém estava disposto a tolerar. O limite da tolerância é o intolerável, disse alguém já em outros dias, e amar é intolerável. Envenena os homens, faz deles egoístas e mesquinhos, invoca desejos que não tem razão de ser. Tudo do que há de abominável.

Claro que houve resistência. Pervertidos e subversivos e rebeldes ou tão-somente-apenas transgressores, criminosos e bandidos, que se atreviam a rabiscar prosas de amor e versos de bem-querer em muros e bancos de praça. Esses, covardes, sumiam como surgiam. De vez em quando, porém, um casal um tanto ousado era visto de mãos dadas, e esses recebiam a justa paga. Eram loucos e eram marginais, e assim eram tratados.

 

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