Quando me pego pensando no tempo que passei na Irmandade, não chego exatamente a sentir saudades. Nem mesmo chega a ser nostalgia de algum tipo, longe disso. É mais como quando a gente de repente se lembra de uma história que escutou muito tempo atrás, de alguém que a gente não lembra bem quem era: dá vontade de escutar a história outra vez, pra ver se guarda cada um e todos os detalhes dela. E é bem por isso que estou aqui, olhando pra esse fim do mundo que tem na minha frente e escrevendo essas minhas memórias. Não que eu acredite que alguém por aí vai encontrar esses rabiscos; não é como se eu acreditasse que ainda existe alguém por aí, de qualquer jeito. A Irmandade fez muito mal seu trabalho nos últimos dias, e uma boa parte da culpa é nossa.

Não quero que me entendam mal: não estou escrevendo essas memórias como as confissões de um velho tomado pelo remorso e atormentado pela culpa, pois não? O que isso é, e é só isso, é um passatempo que vou usando pra ocupar essas minhas últimas horas de vida, cá no meio de lugar nenhum. Também não achem vocês que vão encontrar aqui qualquer justificativa ou tentativa de explicação para as escolhas que fizemos. Não tenho uma única desculpa pra dar, porque a verdade é sozinha ela: fizemos o que fizemos porque pudemos fazer o que fizemos. Poder é uma coisa das mais deliciosas quando a gente tem. E a gente tinha muito. Tanto, mas tanto, que éramos inteiro ele. Veio quando entendemos, ao finalmente, como é que esse nosso mundo funcionava. Mas vou aqui me adiantando: essa história está lá pra frente, quase no fim da história inteira, e o começo é também bastante importante.

No nosso tempo, já se dizia que a Irmandade é que era a única responsável por manter a ordem no mundo inteiro – e bem por isso chamavam também de “A Ordem”. Há quanto tempo existíamos nem mesmo nós sabíamos bem ao certo dizer: uns juravam que a Irmandade sempre esteve aqui, desde muito antes dos Primeiros Dias, costurando os bastidores da história durante todas as Eras; outros tantos, menos idealistas, enxergavam o nascimento da Ordem no vazio que veio depois dos Dias de Ferro. Da minha parte, essa gênese nunca foi da maior das minhas preocupações: Evoli e os Dias de Ferro foram há tanto e tanto tempo que podiam muito bem ter sido logo depois da Grande Noite, ou eras e séculos depois, porque ninguém vivo mesmo sabia. O mundo virou um lugar muito perigoso depois do Cecil, e nem mesmo o tempo corria de um jeito muito seguro. O fato é que a Irmandade existiu por todo esse tempo, do Vazio da História até os Últimos dias, e durante todo esse tempo cuidou das terras e das gentes. Cuidou como pode, em épocas em que muito pouco havia que se fazer. O mundo inteiro definhava tão certeiro que bem que se poderia ter só sentado e esperado o fim. Mas a Irmandade aguentou, movida pelo espírito e pela memória dos nossos Irmãos Fundadores (e aqui eu tão-apenas romantizo, porque nunca nos meus dias de Ordem ouvi falar dos Fundadores ou de suas histórias ou de seus objetivos ou de suas vontades), até o dia em que nós três encontramos respostas diferentes e colocamos um fim em tudo.

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