Entre amor e vinho tinto, há muito decidira que uma vida vazia lhe servia bem: “não faço questão de felicidade; quero só um copo cheio”. Trinta anos de idade com todos eles mal vividos, passava os dias olhando para o nada e esperando o mundo acabar: “se tem um sonho que tenho é ter um fim do mundo pra chamar de meu”.

Pois eis que o fim dos tempos chegou e ele não fez questão de aproveitar. Fim de tarde ordinário de uma quinta-feira sem surpresas, o apocalipse veio sem anúncio e sem vontade: “trânsito complicado na Linha Verde, recomenda-se evitar o Tarumã”. Uma chuva de enxofre aqui, sete pragas ali, a terra ardendo em sofrimento, e ele só fazia reclamar: “essa gente sai de casa todo mundo à mesma hora, eu que não vou pra rua agora não”.

Ficou em casa. A internet transmitia a ira divina com sadista precisão: “o horror!, o horror! e tende piedade de nós e ainda que eu ande pela sombra do vale da morte”, trending topics, enquanto ele fechava a janela pra ver o mundo acabando na televisão.

O grito do Leviatã e o fone de ouvido – “acho que vou é terminar meu seriado favorito” – mas era só a preguiça de esperar o arquivo carregar. “Não tem nada pra fazer, vou ler gibi até dormir”. Abre o vinho, bota a música e vira a página, torcendo pra não ter nenhuma distração.

Céu caindo, chão abrindo, tocando celular: “vamos embora, vamos fugir, vamos pro bar!”. Pegou pra responder, resolveu deixar pra lá: “preguiça de tomar banho e me arrumar, vou ficar por aqui mesmo” e foi ficando.

“Os mortos estão se levantando, estamos encerrando a transmissão. Boa noite e boa sorte”. Caiu a luz, caiu sinal, soaram as trombetas do Juízo Final. “Sem internet e sem TV, vou dormir até voltar”. Sete anjos, bolas de fogo, a besta e o criador compunham cenário do fim anunciado. “Esse mundo já era, galera, entra na fila que vamos julgar”.

“Agora não que tô dormindo, me acorda quando acabar”.

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