Eu precisei perder o amor da minha vida pra decidir o tipo de vida que iria levar. Faz já alguns anos, e não sei muito bem precisar se muitos ou poucos; o tempo do coração passa de um jeito diferente. Pra mim, então, contar dias ou semanas, como as pessoas contam, faz pouco sentido: o meu tempo também passa de um jeito diferente. Como eu ia dizendo, aconteceu anos atrás. Aconteceu quando eu ainda era uma criança nesse mundo, e foi o que precisei pra começar a ver as coisas por uma perspectiva mais… pessoal.

O começo dessas histórias guarda uma montanha de semelhanças que até fazem pensar que todos nós passamos pelo mesmo tipo de crise de consciência ou problema existencial, mas não é muito assim. Não é que eu não tenha um coração, não me entenda mal. Eu só vim de uma realidade muito difícil, em que não havia muito espaço pra sentimentalismo. Por isso que minha transição foi um tanto mais suave do que se romantiza por aí, pelo menos em nível emocional. O descontrole físico foi outra coisa.

Eram dias muito duros, aqueles em que eu nasci, e sobreviver a cada dia já era nossa pequena vitória. “Sobreviver” era só o que a gente fazia; alegria da vida era ter um dia e depois o outro, pois é. Sim, eu sei que sou cheio de clichês; também frases de efeito, piadas prontas e tudo isso, mas não é só porque sou um contador de histórias pra lá de medíocre. Na minha idade já vimos tanta coisa que as ideias se misturam na memória e não lembramos o que é velho e o que é novo.

A única alegria que recordo vagamente de ter experimentado, então, foi ter me apaixonado. Estava entrando na vida adulta, e fizemos juras de amor eterno, um compromisso de nos amarmos para sempre até onde esse para sempre fosse. Sei que seus poetas já cantaram essas palavras, mas me deixem cantar também.

O problema de uma promessa de eternidade não é o risco e a certeza de que ela será descumprida, mas justamente a quase improvável chance de que ela vire realidade.

A minha virou, pela metade. Pela minha metade.

E então tive que assistir os anos passando para ela e não para mim. Escondido, de longe, sem vê-la e sem tocá-la. Sozinho. Cansado. Com fome.

Eu precisei perder o amor da minha vida para decidir o tipo de vida que ia levar, a forma como iria gastar meu tempo nesse mundo. Não o resto dele, mas ele inteiro. Meu tempo passa de um jeito diferente.

Quando me vi sem a única coisa que chegou a ter alguma importância para mim, perdi completamente o interesse por dar valor ao que o mundo poderia guardar pra mim. A vida que vim levando, então, é filha legítima dessa reflexão inconsequente de anos atrás. Inconsequente porque, para mim, para nós – para aqueles como eu – não existem consequências e nenhum preço é caro demais para se pagar.

Talvez você esteja se perguntando: mas qual é a diferença da sua história para a de todos os outros que vieram antes de você? O que te faz tão diferente? E eu direi que, na verdade, eu simplesmente não me importo. Deixei de me importar com opiniões alheias depois de alguns anos, não porque que seja desprendido mas porque com esse tempo todo de mundo a gente já tem força o suficiente pra converter opiniões contrárias ou simplesmente esmagá-las.

Mas o que eu quero não é contar a minha história. Ela não é interessante e eu não gosto de ficar remoendo o passado. Gosto de me vangloriar, e tenho bons motivos para isso; mas não quero me expor, pelo menos por enquanto. Enfim, não quero contar a minha história: quero apenas ter uma conversa com você.

Podemos?

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