Faz algum tempo que dou pouca atenção à memória. Não que eu não sinta carinho pelas lembranças, ou que não dê valor à saudade; à medida que a gente envelhece a cabeça não se incomoda com distinção entre passado que foi e vontade que é. Serve bem: se a vida da gente é história, antes uma peça gostosa de ficção, realismo fantástico, do que um documentário comprido e burocrático.

É verbete que vira poesia.

Daí que não tenho certeza, mas lembro que, quando era criança, costumava sonhar com um cachorro que minha mãe garante que a gente nunca teve. Variava muito sem perder essência: às vezes ele corria sozinho na praia, em outras estávamos todos numa casa que não era a nossa, em outras ele nem estava lá mas era como se estivesse.

Foi só de crescido que fui lembrar disso, nesses episódios que acontecem sem porquê. Me pegava pensando nisso e, naquela psicanálise amadora, tentava decifrar o significado oculto do sonho que também era lembrança que talvez jamais tivesse acontecido: um trauma de infância, um amor esquecido, uma esperança que não foi?

A sorte é que depois de velho a angústia vai cedendo espaço pra serenidade, e o mistério do meu sonho perdeu as cores de divã. Virou anedota, crônica cotidiana, reminiscência, canção de ninar. É com alguma experiência de vida que a gente vê que tem muita coisa que não precisa de porquê: bonito é o que fica na entrelinha.

 

Ah, sim. Adotei dois cachorros essa manhã.

 

 

 

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P.S.:  Faz um mês certinho que não publico nada, mas a vida tá corrida. Vou tentando arrumar tempo e colocar a casa em ordem. Mas não larguei não, viu? Aos poucos respondo os comentários e as indicações; obrigado por continuarem visitando mesmo com tudo parado; as portas estão sempre abertas 🙂

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