Os planos da vida escrevi em rascunho, no verso de uma prova de inglês. Era o terceiro período de faculdade e acabei nem vendo aquela nota: larguei o curso um mês e meio depois, da vontade de viver de música.

O terceiro cachê virou poupança (o primeiro foi ensaio e corda nova, o segundo foi cerveja e carne de onça), mas cada acorde era certeza na escolha bem feita.

Que logo passou.

Uns anos de shows por aí e até disco gravado, a vontade envelheceu. Com dinheirinho guardado, a ideia da vez foi duas: gastronomia em horário comercial, fotografia de final de semana. Pouco tempo, pouco dinheiro, a impressão de fazer o que queria. A certeza, bom, essa não vinha.

Tradução, aula de reforço, música outra vez, banco e firma, fiz bastante coisa uma depois da outra, sem apego, e só eventualmente eu todo dia pensava naquela prova de inglês. No verso dela eu tinha escrito assim: 1. Sair daqui; 2. Viver a vida; 3. Ser feliz.

Disso aí, o primeiro tinha sido o mais fácil. Check.

O segundo era mais questão da juventude: que é que quer dizer? Esses anos depois, me diz um nada. Check? Pode ser, qual a diferença?

Aí o terceiro é que era o plano mesmo, a verdadeira intenção. Ser feliz não sai de moda, a gente gosta, mas olhava minha vida e ficava “será que deu”?

Ainda não sei, mas assim: quando é que a gente sabe?

Não sabe, né. Vai vivendo.

Ah. Olha aí o 2.

Check.

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